Ética no Jornalismo: ela existe?

Por MAURÍCIO ARAYA 

Pelo poder que possui em suas mãos, o jornalista está no centro de diversos ataques contra a sua atuação. É que a prática jornalística pressupõe dar visibilidade a alguém ou algum fato, por meio da “objetividade” e “imparcialidade”. Isto levanta o questionamento, pela sociedade, da veracidade ou não das notícias, visto que o jornalista, na realidade, é subordinado a um sistema de comunicação que possui, também, seus interesses institucionais, econômicos e políticos.

A ética no Jornalismo se dá por meio de um Código de Ética – o brasileiro vigora desde 1987 – que rege a prática jornalística: é um conjunto de regras que tenta prever situações pertinentes à profissão e indicar a postura mais correta àquele dilema. Mas, como tudo nesse mundo, o Código de Ética do jornalista não consegue abranger todas as situações em que o profissional é exposto, até porque o trabalho do jornalista é dinâmico, imprevisível. Este Código, por vezes, chega a ser contraditório, desdizendo suas próprias diretrizes.

Tudo isso nos faz levantar algumas questões: a Ética no Jornalismo existe? Como ela se apresenta? Ela tem a ver com costumes individuais ou com valores sociais? O Jornalismo pressupõe, de fato, um conflito ético? Qual a relação entre a ética e a liberdade de expressão? A liberdade pressupõe responsabilidade do jornalista? Qual a corrente que trata de forma mais adequada o exercício da ética no Jornalismo? A que pensa nas conseqüências, a que tenta impor imperativos universais ou a que trata da “etiqueta”? E, por fim, Qual a relação entre a ética no Jornalismo e a qualidade da informação?

Bem, espera-se do Jornalismo uma postura objetiva na elaboração das notícias. O jornalista deve possuir, segundo o que espera a sociedade, um olhar imparcial sobre os fatos. Por isso ele não deve se envolver com a história e por esse motivo é que a credibilidade da atividade é tão valorizada. Mas o jornalista não é uma máquina: é um ser humano. A subjetividade, própria do ser humano, é que torna a ética no Jornalismo, não impossível, mas difícil de ser um dogma. Não se pode afirmar que a ética no Jornalismo não existe, mas fato é que ela não existe em sua plenitude. É difícil de seguir à risca as regras propostas pelo Código de Ética dos Jornalistas, pois as ações do Jornalismo não são lógicas, com resultados previsíveis, com na Ciência convencional.

Segundo o que se percebe ao se ler o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, proposto pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), é que a responsabilidade ética está sobre o jornalista. No Código há diretrizes estabelecidas para a conduta e responsabilidade do jornalista. Portanto, mesmo que o profissional seja cobrado pela sociedade, a ética no Jornalismo só pode ocorrer a partir da prática ética individual do jornalista.

Como já foi dito, o Jornalismo dá, ou não, visibilidade a pessoas ou fatos, muita das vezes por interesses pessoais ou institucionais. Por esse motivo, pode-se afirmar que o trabalho do jornalista pressupõe um conflito ético diário, mesmo que este não siga à risca as diretrizes impostas pelo Código de Ética ou pela própria Constituição do país. A liberdade de expressão, direito garantido pela Democracia (regime em que vivemos), dá margem a esse conflito, pois, a princípio, não há nenhuma mediação sobre a “publicização” de um fato, a não ser da própria hierarquia comunicacional ou por meio da sociedade. E esta liberdade insere outro fator nesse impasse ético do jornalista: a responsabilidade. Como a Democracia permite a liberdade de expressão de pensamento, o jornalista pode expor sua visão sobre um fato, mas deverá arcar com as conseqüências do seu ato: algo que a responsabilidade exige. É o caso dos blogs: o ciberespaço acaba sendo um meio em que o jornalista pode fugir aos padrões estabelecidos pelas mídias convencionais (papel, rádio e TV). Mas essa exposição pode acarretar na própria “descredibilização” do profissional perante a sociedade ou punição destes por meio da Justiça, como aconteceu em 2004 com alguns blogs. Comentários que violavam os Direitos Humanos tiraram do ar, por meio de decisão judicial, o blog “Imprensa Marrom” (www.imprensamarrom.com.br): neste caso, a punição não se deu pelo ato do jornalista, mas pelo próprio espaço de discussão que é criado na nova plataforma de comunicação. Mas parece que a Justiça só tem olhos para algumas coisas. Um determinado tablóide que circula na região metropolitana de São Luís, com toda certeza, desrespeita regras do Código de Ética do Jornalista, de Direitos Humanos, da Constituição, de Direitos Autorais, etc., com manchetes sensacionalistas que agridem a dignidade e a honra das pessoas (envolvidas ou consumidoras do veículo).

Qual seria a ideologia adequada para se utilizar na ética jornalística? A teleológica, deontológica ou a “regra de ouro”? Na verdade não há uma ideologia adequada, mas sim todas elas, combinadas, são utilizadas pelos jornalistas. A teleologia, que pensa nas conseqüências (basicamente, no leitor), pode ser encontrada todos os dias em jornais, rádios e TV. Se a notícia não é de interesse público, o veículo não vende (seja de forma direta ou indireta). É possível perceber isso, mesmo que aconteça por interesses sejam basicamente comerciais. Bem, a corrente deontológica pode ser percebida através do uso do próprio Código de Ética do Jornalista, que tenta, como já foi dito, por meio de regras, supor e propor ações em cima de um dilema. A terceira corrente que trata sobre a ética jornalística é chamada de “regra de ouro”, ou como se prefere chamar de “regra da etiqueta”, ou seja, tratar os outros como se gostaria de ser tratado. Mas a “regra” infringe alguns artigos do Código de Ética, e nem se não infringisse, é completamente contraditória com a postura que se espera de um jornalista.

Talvez a tentativa de impor regras aos jornalistas vise apenas garantir algo essencial ao leitor ou espectador: o direito à informação de qualidade. A definição de regras, por mais que não englobem todo o universo jornalístico, restringe a prática para que a esta atividade seja utilizada apenas para o bem da sociedade, já que o Jornalismo surge justamente com essa finalidade: oferecer informação à sociedade. É visando o bem comum que se tenta, mesmo que “democraticamente”, moldar o Jornalismo.

Referências

BROCANELLI, Rodney. Caso Imprensa Marrom: Na mira da Justiça. Observatório da Imprensa. Disponível em: < http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=299ENO002>. Acesso em: 26.nov.2007.

BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

ÉTICA JORNALÍSTICA In: WIKIPEDIA, 2007. Disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_jornal%C3%ADstica>. Acesso em: 25 nov. 2007.
 
FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Vitória, 2007. 4 p.

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