O Jornalista do Futuro

Por MAURICIO ARAYA (Novembro de 2007)

Pensar a prática jornalística no futuro: este não é um desafio fácil, em um mundo que, cada vez mais, exige informação de qualidade e de forma objetiva. E o que falar das inovações tecnológicas? Surgem novidades neste campo numa velocidade espantosa, sem que leitor e o próprio jornalista possam absorver com qualidade as inovações. Prejudicial para a atividade, já que esta caminha paralelamente com a tecnologia. Prever o futuro do Jornalismo daqui a dez ou vinte anos é fácil, mas acertá-lo… Imagine a dificuldade, então, de projetar a atuação do jornalista para um século inteiro. Não conseguimos prever com exatidão o minuto seguinte ao que estamos vivendo. Mas é o que tentarei fazer neste artigo, com base no estudo de alguns outros autores.

História para entender o futuro

A prática jornalística sempre evoluiu junto com a tecnologia. Somente após a invenção da tipografia e da descoberta das ondas eletromagnéticas e da utilização destas para transmissão de rádio e TV é que se deu o surgimento da comunicação em massa, e assim, a profissionalização da atividade. Sousa (2005:21) nos demonstra isso:

Quando, no século XV, Gutenberg introduziu a imprensa no Ocidente, imprimiu sua primeira Bíblia e inaugurou uma nova ordem para a circulação do conhecimento, estava também lançando as bases tecnológicas para o surgimento de uma atividade que se desenvolvia à medida que acompanhava a consolidação de uma nova classe social: o Jornalismo como instrumento para a informação e, até o século XIX, formação política da burguesia.

Tipografia de Gutenberg, o pai da ImprensaApós o início do século XVI, a tipografia de Gutenberg  difundiu a alfabetização. Porém, os jornais traziam apenas informações sobre o cotidiano e, principalmente, notícias de teor econômico e político da época. A idéia de um veículo noticioso e diário surge na quinta década do século XVII, com o Einkommende Zeitungen, na Alemanha. No século XIX, novas necessidades do publico surgem. Sousa (Ibdem:24), demonstra:

O século XIX trouxe consigo mudanças que acabariam por transformar a atividade jornalística e fazer nascer um novo modelo, um novo Jornalismo, um Jornalismo moderno que serviu de base para o desenvolvimento da atividade que evoluiu durante todo o século seguinte, tendo se renovado a cada dia. Os jornais, então, passaram a oferecer informações sobre acontecimentos e não mais propaganda política. Tal comportamento é conseqüência da Revolução Industrial que estava em curso.

Uma nova necessidade surge entre os leitores e o Jornalismo precisou acompanhar isso: o leitor queria informação de qualidade, de forma precisa e rápida. Traquina (2004:34 apud SOUSA, 2005:24), explicita:

No século XIX, verificamos a emergência de um novo paradigma — informação, não propaganda — que é partilhado entre os membros da sociedade e os jornalistas; a construção de um novo grupo social — os jornalistas — que reivindica um monopólio do saber — o que é notícia; e a comercialização da imprensa — a informação como mercadoria.

TelégrafoTelégrafoTelégrafoAinda no século XIX, surgem as manchetes nos jornais e o surgimento do telégrafo dá agilidade ao Jornalismo. Com isto, surge também o famoso lead, para que se conseguisse, em poucas linhas, informar o leitor de forma clara.

No século XX, quando a tipografia já não é mais realidade e as impressoras rotativas tornam maiores as tiragens dos jornais, surgem rádio e TV. Neste século, a comunicação de massa se consolida. Com essa nova realidade, o papel do jornalista vai se dinamizando, como afirma DeFleur (1989:70: “O papel do repórter tornou-se mais complexo e especializado à medida que os jornais incorporaram correspondentes estrangeiros e colhedores de notícias especializadas de vários tipos”. É esse o perfil que vai se desenhando para o profissional de comunicação social no século XX. A partir daí, novas qualificações são exigidas dos jornalistas.

O novo nicho

Maur�cio ArayaNos anos 90, nos Estados Unidos, observou-se uma inovação: as emissoras de TV, tão populares, agora tinham uma nova concorrente, a Internet. A nova tecnologia permitiu transmissões digitais, armazenamento de arquivos e, o principal: a formação de uma fantástica cadeia de troca de informações, como nunca se havia visto antes. Wilson (2000:25), afirma:

O poder da Internet está baseado na sua habilidade de superar as barreiras que limitavam o acesso de uma enorme massa de informações para os consumidores comuns. A Internet é o prático caminho para o ciberespaço e, além disso, o software que vai pegar carona em todas as faixas da nova auto-estrada da informação eletrônica – sistema de telefone, TV a cabo, televisão aberta e canais de satélite.

Apesar de tão nova, a Internet se tornou o início de uma transformação que acarretará na digitalização de tudo que conhecemos atualmente, no meio da comunicação ou não. Com isso, o principal fator de dificuldade para o “jornalista do futuro” é a linguagem. Como adequar a linguagem jornalística que conhecemos atualmente à uma nova plataforma? Conhecemos as técnicas de elaboração do texto jornalístico para veículos impressos, rádio e TV. Mas conhecemos ainda as necessidades da Internet. Adaptamos as linguagens de veículos que já conhecemos para o novo meio. Textos já publicados em jornais e revistas são reproduzidos em portais da Rede Mundial de Computadores, ou Web (que deriva de World Wide Web – em inglês, significa “teia”). Matérias de TV são digitalizadas e transferidas para o servidor da Web. As rádios também já descobriram o novo nicho para transmitir suas programações para o mundo inteiro. Mas é difícil, ainda, de se encontrar web rádios, TV’s online e jornais exclusivamente dedicados à nova plataforma. Geralmente, são veículos que possuem estruturas e programação difundidas por meio de irradiação eletromagnética ou por satélite. Até porque, no caso de um jornal dedicado exclusivamente à Internet, acaba se caracterizando como portal de notícias.

MicrocomputadorOutro meio que está despontando no mercado da comunicação é o celular. Operadoras de telefonia móvel já dispõem de uma tecnologia que permite ao usuário receber as notícias em seu aparelho, o mesmo que pode acessar a Internet por meio de um protocolo de acesso à Internet sem fio, chamado WAP (Wireless Application Protocol). Esta tecnologia permite ao usuário receber as informações onde estiver. Aliás, essa é a principal dificuldade dessa nova plataforma: como oferecer ao leitor condições para que este receba as notícias de forma confortável e onde e quando desejar. Hoje, os Desktops são incômodos, de certo modo, ao leitor: ele tem que dispor parte do seu tempo para sentar em frente ao seu computador. As redes sem fio, ou wireless, estão favorecendo uma mudança, mas ainda sim é um incômodo ao leitor andar com um microcomputador de 1,5 kg para ler um jornal ou ouvir uma rádio online. Por todos esses motivos, ainda é difícil projetar a atuação do jornalista para o futuro. Criar uma linguagem objetiva, clara e pouco prolixa é necessário para que não se afogue o leitor neste mar de informações, que mudam a cada segundo. Toda essa realidade que vivemos atualmente talvez modifique as técnicas de construção do texto jornalístico, na criação de novas formas de leads, por exemplo, como aconteceu no século XIX.

A Era digital

iPhone da AppleEstamos vivendo uma Era de transposição de meios analógicos para transmissão 100% digital. Interatividade, serviços, notícias… Tudo isto num só aparelho. Com isto, mais informação e maior a chance deste leitor se asfixiar. Um exemplo clássico de convergência dos meios é o smartphone, ou iPhone. Neste aparelho, o bendito leitor pode navegar na Internet, ouvir músicas em formato MP3, tirar fotos, assistir vídeos e TV… Ah! Quase me esqueço: ele também realiza chamadas telefônicas. É esse a principal característica do aparelho de comunicação interpessoal do futuro: não tem uma funcionalidade principal, simplesmente faz tudo. O aparelho possui apenas 135 g e com tela de 320 x 480 pixels sensível a toque. É o sonho de qualquer um, mas o uso dele fora dos Estados Unidos ainda não é possível. Mais de 200 patentes permitem à Apple, fabricante do produto, um monopólio sobre a tecnologia. Existe apenas uma previsão para 2008 de que ele seja lançado em alguns países da Europa. E mesmo que chegue ao Brasil, de forma oficial, o preço ainda está muito além de ser popular: US$ 399 pelo modelo de 8 Gb. No Brasil, o modelo (que não funciona) é vendido, no mínimo, por R$ 1.599. Por isso, a convergência midiática em um aparelho acessível a todos e portátil ainda não é uma realidade para curto-prazo.

O jornalista do futuro

Bem, se vivemos, então, em uma Era de digitalização dos meios, novas possibilidades surgirão no futuro. A principal preocupação de quem discute, atualmente, os meios de comunicação digitais é a construção de conteúdo, e, desta forma, é fundamental a presença do jornalista. Mas que conteúdo será construído a fim de atrair e interagir com o público espectador? Se atualmente, na Internet, qualquer pessoa pode criar seu blog ou site, e assim, construindo conhecimento e conteúdo, o que irá diferenciar o senso comum da informação qualificada? Um exemplo disso, foi a restrição, por parte do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em maio de 2007, do uso de sites como YouTube, MySpace, entre outros. O uso destes sites, por parte dos militares, poderia prejudicar a segurança na divulgação de informações militares.

Como então fixar uma identidade nesta “teia” de bilhões de informações (por vezes com teor ludíbrio, mas que atraem o público espectador por seu poder de persuasão)? Para a formação do conhecimento em uma sociedade é necessário mais que um simples suporte de publicação, seja ele impresso, por meio de ondas ou de megabites, analógico ou digital. Por esse motivo é que se tornou fundamental a profissionalização do jornalista, ocorrida na década de 30 do século XX. Não é à toa que o Jornalismo é classificado como Ciência Social: isso distingue o senso comum da atividade jornalística. Por esse motivo, ainda se tenta obrigar a graduação em Jornalismo para o exercício da profissão.

 Outra característica buscada para o “jornalista do futuro” é a multifuncionalidade. Se estamos caminhando para a convergência das mídias, é essencial que o jornalista saiba lidar com a tecnologia e adequar seu texto a diferentes conceitos de mídia. Desta forma, é reafirmada a teoria do Gatekeeper, ou da ação pessoal. A decisão do que é ou não notícia estará sob responsabilidade do próprio jornalista, sem atuação de um mediador. O jornalista escreve, edita e publica, de forma rápida e ágil, conforme o que está acontecendo.

Aliás, este é o tempo do futuro: os fatos não “aconteceram”, tampouco “acontecerão”, e sim estão “acontecendo”. O gerúndio é o novo conceito de temporalidade no Jornalismo: a notícia é construída no momento em que o fato está de desenrolando, da mesma forma em que acontece nos canais de TV de notícias 24 horas e nas rádios, através do celular. Isto contribui para uma desinformação temporária: o leitor não consome mais uma história com começo, meio e fim, e sim faz parte da mesma, podendo, inclusive, intervir no processo de construção da notícia, através da interatividade proporcionada pela Internet.

Conclusão

O futuro do Jornalismo é tão incerto que nem quem está saindo das faculdades sabe ao certo se está, de fato, qualificado para esta nova realidade que está sendo construída. O conhecimento está se modificando na velocidade da Internet. E estar atualizado com as novas informações é essencial para o entendimento da nova Era da Comunicação. O jornalista deve estar capacitado para o exercício de novas funções e para a apreensão de novas técnicas, que atualmente, por sua arrogância profissional, não se permite atuar, como na operacionalização de uma câmera de vídeo, por exemplo. É o novo profissional que se está exigindo, pouco a pouco. Um profissional capaz de realizar multifunções, no entanto, com rendimento cada vez menor. A exigência de um reconhecimento maior de sua atuação só se dará através da qualificação profissional, através de uma graduação, pós-graduação e atualização permanente, por meio de cursos e congressos que discutam os dilemas e o futuro da profissão. Com isso, não só estaremos fortalecendo a necessidade do Jornalismo por parte da sociedade, como estaremos garantindo ao nosso público informação de qualidade e diferenciada, não apenas como elemento de retroalimentação da própria Mídia. Criar um relacionamento de interação e respeito ao leitor: esse é o desafio do jornalista no século XXI.

REFERÊNCIAS

AMARAL, Renata Maria do. Representações sociais e discurso midiático: como os meios de comunicação de massa fabricam a realidade, 2005. 15f. Artigo Científico (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco.

DEFLEUR, Melvin Lawrence. Teorias da comunicação de massa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

DIZARD, Wilson. A nova mídia: a comunicação de massa na era da informação. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

IMPRENSA In: WIKIPEDIA, 2007. Disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/Imprensa>. Acesso em: 25 nov. 2007.

IPHONE In: WIKIPEDIA, 2007. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Wireless>. Acesso em: 25 nov. 2007.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 13.ed. São Paulo: Editora 34, 2004.

PENA, Felipe. Teorias do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.

SIMÕES, Luiza. Daqui a 20 anos. Imprensa, n. 227, p.34-36, set.2007.

SOUSA, Li-Chang Shuen Cristina Silva. Cobertura esportiva na televisão: jornalismo ou entretenimento?, 2005. 158f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco.

WAP In: WIKIPEDIA, 2007. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/WAP>. Acesso em: 25 nov. 2007.

WIRELESS In: WIKIPEDIA, 2007. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/IPhone>. Acesso em: 25 nov. 2007.

Responses

Acredito que o futuro do jornalismo a partir do século XXI envolve uma questão mais prioritária que a Técnica.

O jornalismo, quando de seu nascimento com as revoluções burguesas, era palco de discussões e argumentações sobre e fomentando a Democracia. Tal caráter se perde com a entrada da Publicidade no fazer jornalístico.

Isso quem afirma é Habermas: http://www.geocities.com/Eureka/2330/habermas.htm

Para Habermas, hoje estamos carentes de uma esfera pública, visto que os media não mais discutem o público. Os media vendem o privado como informação disfarçada de pública.

A internet é um campo em que o jornalismo pode voltar a suas raízes. A cada dia - a web 2.0 comprova isso -, a internet caminha para se constituir como um novo espaço de discussão pública. Uma nova esfera pública. Como exemplo, este jornal eletronico sul-coreano: http://english.ohmynews.com/

Abraços.

Leave a response

Your response: